Arquitetura não é mais arquitetura. Pelo menos não é só. Antes se dizia dela referir-se a um edifício. Às vezes, nem mesmo isso; apenas à fachada dele. Grande parte do trabalho arquitetônico resumia-se ao desenho, à arte das aguadas, cores e decorações. Incluía-se entre as decantadas Belas Artes. Os proprietários ou responsáveis não procuravam o arquiteto senão para embelezarem as idéias adotadas ou para transformá-las em planos técnicos.
Agora a arquitetura não é nada mais disso. Pelo contrário, vem tomando tal amplitude que se torna difícil encontrarem-lhe os limites. É ordenação do espaço, é construção, é planificação. E, quando se fala em ordenação, em construção e em planificação, sobrepassam os qualificativos o campo físico para envolver o abstrato em termos de abrangência social, psicológica, econômica, etc. etc. Arquitetura é, cada vez mais, ordenação de coisas e de todas as coisas. Construir tecnicamente, dentro do econômico; o espaço concretamente necessário, compreendido como psicologicamente adequado; o programa ligado às técnicas: o quotidiano aliado à evolução; o útil com todas suas implicações intrínsecas à sociedade moderna, ao belo que deve ser eterno.
Arquitetura é a ordem multisectorial posta em beleza.
Épocas pregressas recomendaram a divisão das ciências como processo mais favorável a seu desenvolvimento. Distinguiam-se em ramos: a física, a química, a astronomia, a matemática e as mais. Na medida, porém, que o homem estabelecia seu domínio sobre o ambiente e mais o conhecia, sínteses se foram tornando necessárias e as distinções nítidas entre os vários ramos científicos foram e vão se apagando. Física, química, astronomia, matemática são hoje um só contexto. Com o átomo, ingressamos em uma nova civilização, caracterizada, fundamentalmente, por sínteses. Arquitetura é a síntese do bem estar do homem e, por isso mesmo, a mais importante de todas.
Arquitetura é difícil. Extremamente. A um só tempo exige conhecimento efetivo de suas componentes, em análises substanciais, e somatórias de concomitâncias. Contudo, não só somatórias, porque ultrapassam as parcelas, com o acréscimo da intenção plástica e das opções que a distinguem de uma construção apenas.
Arquitetura conforma o indivíduo, a sociedade e a própria civilização, que nela se traduz. A infância nela se cria, física e espiritualmente; a juventude nela se expande e a humanidade nela vive e se afirma. Não é, pois, apenas um lugar qualquer no espaço, mais ou menos útil e mais ou menos agradável. Mais que isso é o mesmo condicionamento existencial. A cadeira que convém, o dormitório para o descanso, a sala para o lazer, o lar para a educação, a rua por onde circulamos, a praça onde nos reunimos, os centros comunitários onde nos julgamos seres humanos em sociedade, o edifício de nossas decisões maiores, a igreja de nosso recolhimento, as comunicações que nos permitem o trânsito, o país que amamos. Tudo isso e mais ainda: as tradições incorporadas à nossa maneira de existir, o presente que aspiramos, e o futuro que se avizinha. Impulso ao avenir sem desapreço ao passado.
Isso é arquitetura e mais. A vida digna de ser vivida.
SYLVIO VASCONCELLOS

20º Concurso Nacional de Trabalhos Finais de Graduação em Arquitetura e Urbanismo para formandos em 2007.
http://www.iab.org.br/200708/lancado-o-concurso-opera-prima-e-projetando-com